terça-feira, 8 de março de 2011

Monteiro Lobato, o intocável.

 
   Certa vez, sentada na cadeira da Universidade na aula  de Literatura Infanto-Juvenil, me encantava a cada página que virava do livro Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato, pensava com toda convicção que este autor era uma revolução para este tipo de literatura, porém, sem muito sucesso, fui a única da sala a questionar o tratamento racista dado a personagem Tia Anastácia, sendo alvo de insultos pela Boneca Emília.
Para muitos teóricos literários, a boneca Emília é a voz do autor com suas provocações e sua  independência de pensamento, logo, não é surpreendente que Lobato, além de retratar a realidade racista do Brasil, expusesse na voz  da boneca suas tendências racistas, já que conhecendo a biografia do autor suas convicções políticas eram conservadoras.
      Pode ser que  a obra de Monteiro Lobato tenha marcas racistas, preconceituosas, mas será que vetar o livro de grande importância literária nas escolas públicas  é a solução?
Para a  Academia Brasileira de Letras, “cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica”.
     Já para a militante do Movimento Negro do Distrito Federal, Marlene Lucas,“Tudo aquilo que agride a identidade das pessoas deve ser banido, seja de qual período for, independentemente da importância histórica e artística”, defende.
     É legitimo fazermos novas releituras diante aos clássicos literários, da mesma forma que os contos de fadas banhados por violência passaram por modificações de acordo com o tempo, as obras de Lobato precisa ser acessível aos leitores, mas nada impede de utilizarem notas de rodapé e avisos, afinal já fazem isto com tantos livros . Só não dá para velarmos e sustentarmos o preconceito sutil que já é uma característica da sociedade brasileira que nunca assumi seus problemas históricos e enxergarmos Monteiro como intocável.

domingo, 6 de março de 2011

Contos do escritor português Miguel Torga


Contos do escritor português Miguel Torga
A relação de criador e criatura.

    Miguel Torga, escritor português de grande importância literária do século XX,  mostra em sua obra “Bichos”  toda a sua influência do Campo, da natureza, de forma que o simbolismo traduz toda perplexidade diante da natureza humana ligada as sensações transcendentais, revela ainda a relação de criador e criatura com pano de fundo o conflito da liberdade , sendo menos ingênuo quanto parece.
    Os contos da obra :Vicente, Madalena e Jesus  remontam um panorama religioso e, no fundo bíblico, de modo que a terra, a água e o parto são elementos repletos de significados dentro das narrativas. Torga codifica a relação do criador e a criatura, marcando aspectos da liberdade e do autoritarismo das personagens. Há também  intencionalidade do autor em analogar e fomentar a inversão de papéis dada aos animais e aos humanos( característica patente das fábulas), a fim de planificar as perspectivas e visões entre os seres.
    Em “Vicente”, a ligação do criador e criatura é mais direta, tornando-se nítido o denegatório do corvo (criatura) as demandas do Deus( criador). A consciência  do desejo à liberdade faz da personagem o herói do verdadeiro livre arbítrio .
    Já em “Madalena”, a relação atravessas duas vertentes: sociedade opressora e mulher; mãe e filho. No primeiro plano, a sociedade oprimi a figura da mulher, tirando- lhe todo direito à liberdade e às escolhas, fazendo-se dela sua criação. No segundo plano, a mãe ( Madalena) movida pelo seu individualismo e pela concepção conservadora da sociedade  impele o nascimento do seu filho ( criatura). O espaço do conto revela sinais da narrativa, como a umidade do Tenário, dando a idéia de fertilidade e o clima da seca em Serra Negra, comparando ao ventre seco.
    Com o conto “ Jesus” a relação é sublime entre o criador e criatura. A personagem é uma criança que através de um beijo, dá a vida ao pintassilgo. Seu ato é divinal, cheio de heroísmo puro, seu beijo é o símbolo da fertilidade, mostrando uma atitude transcendental.
    Ambos os contos mostram-se ricos em significados para afetar o drama e explorar a relação criador versus criatura, trazendo não como simples idéias, mas ocupando um espaço imensurável para a descoberta do desfecho das narrativas.



Erica Dilá


Este texto é dedicado especialmente à  Jornalista, Professora e Escritora Vânia Cardoso Coelho.

Indigestão.

Foto: Daniel Queiroz


Se estamos enfadados de tudo que acontece no mundo, revestidos de violência  e miséria humana, por que continuamos estagnados como se estivéssemos esperando o último trem?
Se pensássemos no que nos incomoda por que continuamos indigestionados com fome?
Se vivêssemos de uma forma plena em beleza por que nos sentimos tristes ao cair da tarde?
É por que simplesmente esperamos que os outros falem o que sentimos sem ao menos saber os nossos sintomas.

Erica Dilá

Igualdade na Desigualdade


Como podemos acreditar na igualdade que garante os direitos humanos, sendo que nossas mais velhas tradições e novas concepções da sociedade se recusam a discutir a causa, fechando seus olhos na mais cegueira estúpida contradição?
Como devemos nos enxergar como seres humanos se nos recusamos na mais absoluta ignorância olhar no espelho e perceber que somos a imagem e semelhança do outro. Que outro?
Outros que convivem, que olham, que amam e odeiam e cada um tem a sua verdade e sua plena ignorância de não nos reconhecermos como outro.
Acreditar na igualdade é primeiramente sentir-se igual e ao mesmo tempo único no mundo. Entender que suas idéias  podem servir para sustentar e também aniquilar sonhos.

Erica Dilá

Na “globolização” há lugar para a imaginação?



   Vivemos em tempos dinâmicos cujas informações, imagens e excessos tecnológicos nos trazem uma realidade dada, massificada, “robotizada”...
            Por onde andará a fantasia em tempos como este? Será que devemos vestir a mortalha da imaginação? Ou simplesmente compreender que somos seres mecanizados e que nossas crianças já perceberam a realidade disto?
         Estas indagações, citadas acima, se acentuam com traços tão fortes que chegam quase tornar-se consenso contemporâneo. Se a imaginação é moribunda a arte e a ciência estão sepultadas, o que sabemos que é inverossímil. Mesmo com era virtual o público infantil se vislumbra com os animais falantes, caixas mágicas e heróis voadores, então como podemos negar a presença ininterrupta da imaginação?
            Segundo o epistemólogo Gillles Gaston Granger:Imaginação é a representação de um objeto por meio de imagens sensíveis”. Neste sentido, para simplificar a complexidade da imaginação  entenderemos como uma atividade psíquica que recria uma nova realidade dentro de um sistema simbólico. De fato, a imaginação não é privilégio da infância, podemos citar como exemplo os cientistas tecnológicos que criam ferramentas para a utilização no mundo moderno e também gênios da arte que eternizam suas obras. Para Jean Piaget, a atividade imagética deveria se desenvolver com a idade como outras funções mentais, porém o que percebemos é a ação do adulto, dos componentes do meio familiar e escolar que contribuem em geral para frear ou contrair tais tendências em vez de enriquecê-las. Encontramos não é o lugar da imaginação sendo ocupados pelo dinamismo virtual como muitos insistem e sim, a subestimação do exercício da imaginação infantil com os enlatados clichês que visam o consumo, como por exemplo, Coelho da Páscoa e Papai Noel, estes já saturaram nossa imaginação.
            Estimular a imaginação seja da criança ou do adulto é abrir portas para outros “mundos”, conhecer o desconhecido, suprir os anseios humanos, e além de se tornar um indivíduo criativo( o que trará muitos benefícios na vida) recriará uma nova realidade.


                                                                                                                            
                                                                                                              Erica Dilá

Revelação

foto: Daniel Queiroz
A dor e a contemplação se entrelaçam percorrendo em minha veia
Entorpecido relaxo em suas imagens e lembranças
Os sentidos se revelam......
Emergi o descontrole dos meus sentimentos
Sensações repetitivas e envelhecidas,
são mascaradas de ilusões inovadoras
O grito pulsa à idéia
A idéia transfigura em puro êxtase
Encontrando o desespero da dor !... revelação.

CEU ou Purgatório ? Qual é a realidade do Centro Educacional Unificado hoje ?



O CEU( Centros Educacionais Unificados), criado na gestão da ex -prefeita de São Paulo Marta Suplicy, é localizado em áreas carentes da cidade, tendo como principal objetivo a efetivação do direito de todas as pessoas à uma educação integral social, cultural, cidadã, popular, relacionando- se ao desenvolvimento e a participação comunitária para compensar a desigualdade social.
Na gestão da ex- prefeita a implementação do CEU foi alvo de crítica tanto da oposição, quanto da imprensa pela inovação dos conceitos propostos de educação ligada à cidadania e a  cultura, mas foi aprovado com 90% pela população nos seus primeiros anos de vida , dado indicado pela Fundação para a Infância e Adolescência (FIA) que acompanhou a avaliação do Centro Educacional.
A apropriação da comunidade no CEU  foi o foco dos objetivos do estabelecimento educacional , priorizando o público alvo a fim de que usufruíssem do espaço e dos recursos existentes, buscando assim o exercício da democracia, não como meros passivos , e sim como agentes que utilizam o espaço como forma de direito para expressarem e difundirem suas necessidades artísticas e intelectuais.
Na região do Itaim Paulista, zona leste da cidade de São Paulo, os CEU, assim como a casa de cultura tem trazido um novo significado para a  população. Após a sucessão do governo que idealizou e implementou o CEU o engessamento do espaço se tornou um entrave para a comunidade que antes via como um espaço popular de exercício da democracia, sendo hoje administrado por pessoas insensibilizadas com o projeto e funcionários indicados sem o menor compromisso com o conceito democrático do espaço, limitando a comunidade as migalhas impostas da ditadura da gestão e restringindo artistas da região, dando prioridade a usufruir e trabalhar apenas pessoas ligadas à conchavos políticos ou próximas da gestão.
A comunidade está percebendo o descaso da administração do CEU, conseguindo comparar  o compromisso da gestão que implementou o projeto ligada as reais necessidades culturais e sociais dos moradores do bairro com o trabalho excludente e elitista da atual  administração, uma vez exercendo a democracia a população quer continuar sendo reconhecida como sujeitos protagonistas e cidadãos usuários de serviços com responsabilidade e dignidade quer o CEU e não o purgatório

Erica Dilá

sábado, 5 de março de 2011

Existência do lucro

Já vendemos nossas terras, culturas e teorias,
Simplesmente nos vendemos à números infinitos,
Pesos, dólares, reais e ideologias.
Vendemos nossas revoltas e nossos conflitos,
Nossas histórias e nossas mentiras.

A vertigem da liberdade na inconsciência ...
E não somos retrógrados e nem evoluídos
Mercantilismos da nossa inerência
tem natureza e origem constituídos.

Monopolizamos o nosso conhecimento
Pensamentos e sonhos não são corrompidos
Devaneios não são vendidos
Mas consumismo e somos consumidos.

Erica Dilá

Maquinaria do tempo

Sinto a leveza desse instante,
Ouço o vento soprar com sua ruidosa canção melancólica
E vejo as árvores balançarem voluptuosamente,
e faz de sua existência uma poesia.
Percebo então que este momento é único
e que tudo passa pela maquinaria do tempo.
O pefume doce que embriaga a alma
é o mesmo que causará nostalgia amanhã.

O meu tudo amanhã é nada
O meu nada amanhã é tudo.

Aquela chuva sutil que molha a terra
Pode ser a tempestade do nosso futuro.
A beleza é fugaz só consiste em um tempo restrito.

Erica Dilá
3º lugar no concurso de poesia da Universidade Guarulhos.

Há uma vertigem!

Há uma vertigem
Entre as horas que passam e os dias sucessivos.
Caminho e não encontro nada, apenas um vácuo
que com a umidade da estrada me assusta.
Meus gritos são sons abafados,
e a terra seca convida sutilmente à uma cerimonia sigilosa.
E mais uma vez o labirinto...
Cansada de uma trajetória vã, insignificante,
tiro os sapatos, cada movimentos do despir
reconforta minha alma, meu corpo.
O sol que banha meu rosto devolve-me a energia,
profeticamente pronuncia que devo continuar a jornada.
Para onde? Para quê?
Esta estrada é muita longa para mim.
Somente heróis vencem batalhas tão difíceis,
eu sou perdedora, covarde.
Cada passo destemido foi mera ilusão,
uma embriaguez devastadora.
E em meio a estrada olho para atrás e acendo um cigarro.

Erica Dilá