Certa vez, sentada na cadeira da Universidade na aula de Literatura Infanto-Juvenil, me encantava a cada página que virava do livro Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato, pensava com toda convicção que este autor era uma revolução para este tipo de literatura, porém, sem muito sucesso, fui a única da sala a questionar o tratamento racista dado a personagem Tia Anastácia, sendo alvo de insultos pela Boneca Emília.
Para muitos teóricos literários, a boneca Emília é a voz do autor com suas provocações e sua independência de pensamento, logo, não é surpreendente que Lobato, além de retratar a realidade racista do Brasil, expusesse na voz da boneca suas tendências racistas, já que conhecendo a biografia do autor suas convicções políticas eram conservadoras.
Pode ser que a obra de Monteiro Lobato tenha marcas racistas, preconceituosas, mas será que vetar o livro de grande importância literária nas escolas públicas é a solução?
Para a Academia Brasileira de Letras, “cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica”.
Já para a militante do Movimento Negro do Distrito Federal, Marlene Lucas,“Tudo aquilo que agride a identidade das pessoas deve ser banido, seja de qual período for, independentemente da importância histórica e artística”, defende.
É legitimo fazermos novas releituras diante aos clássicos literários, da mesma forma que os contos de fadas banhados por violência passaram por modificações de acordo com o tempo, as obras de Lobato precisa ser acessível aos leitores, mas nada impede de utilizarem notas de rodapé e avisos, afinal já fazem isto com tantos livros . Só não dá para velarmos e sustentarmos o preconceito sutil que já é uma característica da sociedade brasileira que nunca assumi seus problemas históricos e enxergarmos Monteiro como intocável.